O clássico épico russo acaba de ganhar duas novas traduções em inglês, uma sem setembro, a outra no mês seguinte. Não é interessante? Na verdade, considero que sejam traduções de textos diferentes, de momentos diferentes do Tolstói e do livro, e que deram em perspectivas diferentes de uma obra-prima.
A primeira a chegar às bancas foi a edição da Ecco, lançada em 4 de setembro, com tradução de Andrew Bromfield, e se define (e grita isso bem na capa) como a “edição original”. São 912 páginas para um romance de peso, com tradução baseada em uma das muitas versões que deram origem ao texto final – e tem até final feliz, ao contrário do que Tolstói decidiu no final do livro que publicou. Andrew é também tradutor de Victor Pelevin, Boris Akunin, Mikhail Bulgakov, Vladimir Shinkarev e outros nomes russos.
Sobre essa tradução, dois comentários com opiniões completamente contrárias estão nesse momento em destaque na Amazon:
I bought this book after seeing it at a bookstore, at less than double the price.
It is the best by far edition of “War and Peace:, mostly because of the superior translation. As someone who reads Russian, I had not found anything that comes even close.
Beautifull edition too (Dessislava Boneva)
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This is one of the worst abominations in the history of publishing. As multiple Tolstoy scholars and translators have already pointed out, this is NOT a translation of a “version” of WAR AND PEACE, let alone the “original” version. It is a translation of a draft and very definitely not anything that was intended as a final draft. Tolstoy definitely never intended it to be published.
The only thing I can figure is that the publisher Ecco is cynically milking a public that suffers from mass attention deficit disorder. This is pandering of the worst possible kind. If they were marketing it as a translation of a draft this would be a different matter, but they are marketing it as the “original” version, which it most assured is not. It is simply an unfinished draft.
An anecdote seems apt here. For many years Henry James sent his older and more talented brother William copies of his novels. Henry suffered from an inferiority complex and was always anxious to hear what William’s reaction would be. When William didn’t respond to one such novel, Henry wrote him asking what he thought. “It’s not WAR AND PEACE,” re replied. Who knew that the same could be said of a “translation” of WAR AND PEACE itself?
My recommendation: read WAR AND PEACE. I read this original in the famous Maude translation and later in the Rosemary Edmonds translation. I plan on reading this again. This time I will turn to the new translation by Richard Pevear and Larissa Volokhonsky. They have produced many great translations of Tolstoy, Gogol, Chekhov, and Dostoevsky. Turn to any of these translations instead. I think this particular edition should be of concern ONLY for those who are interested in the history of the production of the text. And no one else. (por Robert Moore)
Esse último puxa para a segunda nova tradução, lançado pela Knopf em outubro, trabalho de dois tradutores, Richard Pevear e Larissa Volokhonsky, com a curiosidade que essa versão ganha muito mais páginas em relação a traduções mais antigas (são 1.296 no total). Além disso, trechos escritos originalmente em francês , como o da abertura, foram mantidos (com a tradução em nota de rodapé), o que por si só é um bom sinal. Cerca de 2% do romance é falado em francês, e não deve ter sido assim, à toa. Também diz-se que eles se mantiveram fiel ao estilo de Tolstói, ora mantendo suas muitas repetições, ora deixando que algumas estranhezas do russo do autor permanecessem estranhas na versão em inglês. A dupla de tradutores tem feito nome assinando traduções célebres de outros livros de Tolstoy, Gogol, Chekhov e Dostoevsky.
A Amazon tem vinte resenhas sobre essa tradução. O Reading Room do Sunday Book Review também está com um debate interessante.
Eis abaixo dois trechos de cenas de Natasha Rostov, que peguei nesse texto de Bob Blaisdell, que coteja os dois textos de forma brilhante:
“Natasha leapt out of bed in her bare feet, picked up her slippers and ran off into her room, where it was a long time before she could fall asleep, still thinking about the fact that no one could possibly understand everything that she understood and knew inside her.” (Andrew Bromfield)
“Natasha jumped up barefoot and, snatching her slippers, ran to her room. She could not fall asleep for a long time. She kept thinking that no one could understand all that she understood and all that was in her.” (Pevear and Volokhonsky)
Outras traduções do mesmo livro em inglês foram feitas por Anthony Briggs (lançada no ano passado), Constance Garnett (coincidentemente comentada pela Susana Klassen hoje), Rosemary Edmonds, Ann Dunnigan, Clara Bell, N.H. Dole, Leo Wiener e Louise e Aylmer Maude, essa última aprovada pelo próprio Tolstói. Em português, entre o Brasil e Portugal, temos Nina Guerra e Filipe Guerra, Boris Schnaiderman no Brasil, todos traduzindo diretamente do russo, Gustavo Nonnenberg (via versão francesa), Oscar Mendes e João Gaspar Simões (que não sei quais versões usaram). Ficarei feliz em amendar essa post e conhecer outros nomes e versões que me fogem à memória e escapam ao Google.
Se não falas russo, em qual delas acreditar? Prato cheio para quem gosta de comparar traduções. A Amazon está até com uma promoção, compre os dois War and Peace juntos por US$ 45,27.
E, de uma forma ou de outra, espero que justiça a Léon Tolstói tenha finalmente sido feita, pelo menos para Война и мир em língua inglesa.









O “War & Peace” que tenho é esse aí da Constance Garnett. Também me meti a procurar referências sobre a moça e cheguei, inclusive, ao artigo do Remnick, citado pela sua amiga Klassen. Já me deu um certo desânimo.
O jeito é esperar até 2011, quando sai a tradução direto do russo, em processo pelo Rubens Figueiredo, que será publicada pela Cosac & Naify.
Paula, o post já está bem antigo, mas talvez você ainda passe por aqui… ;-) Adoro a literatura russa, mas “Guerra e Paz” ainda está na minha lista. Você acha que há alguma versão “confiável” em português? Essa da Cosac & Naify será a primeira traduzida direto do russo?