Em Poeminha do Contra, Mário Quintana nos mostra algumas das características marcantes que garantem a ele um lugar na minha lista de poetas brasileiros geniais e indefectíveis – a simplicidade, a concisão e a leveza presentes nas quatro linhas do poema, e arranjadas de uma forma deveras eficaz com uma pitada inimitável de senso de humor quintanesco, fazem com que o poema beire o intraduzível.

Tradução mera e simples para o inglês de todas as nuances que ele apresenta não funciona aqui, especialmente por causa de uma pequena limitação da língua de Shakespeare quando comparada com a de Quintana – a ausência quase total do elemento que dá toda a graça às palavras do brasileiro: sufixos que sejam correspondentes diretos dos nossos aumentativo ‘ão’ e diminutivo ‘inho’. Acrescentados à palavra passar (que por si só significa tanta coisa), eles a tatuam com uma marca totalmente diferente, transformando-a num verbo em forte tom de futuro do presente na terceira linha e num delicado substantivo na linha de desfecho. Nas entrelinhas, passarão, da etimologia pássaro + -ão, também significa pássaro grande, e é um regionalismo para ‘espertalhão’ muito usado em Portugal.

Uma brincadeira de inocência quase infantil com partículas e significados da nossa língua; uma aliteração que, caros leitores, infelizmente se perde na tradução, pelo menos na versão em língua inglesa, e imagino que outras línguas romanas não alcançariam a façanha tão facilmente. Acrescente-se a isso tudo as rimas muito naturais, e que são ao mesmo visuais e fonéticas, e o intraduzível, ou pelo menos no formato de cópia fiél de uma obra em outra língua que normalmente se espera que a tradução seja, se confirma. Considero intraduzíveis essas quatro linhas, uma quadra que faz o leitor chegar ao meio do poema com uma dose de ansiedade, e acabar a leitura com um sorriso nos lábios.

Essa leveza derivada do contraste entre a tensão da primeira metade e a candura da segunda, no entanto, pode sim ser traduzida e a língua inglesa tem a concisão ideal para isso, mas muitos bílingues hão de concordar comigo, dificilmente com a mesma beleza e inocência do original. A boa notícia é que traduções possam vir a ter uma outra luz, uma outra certa lindeza própria. Ou, em outras palavras, o poema de Quintana pode inspirar versões, adaptações, traduções criativas que venham a cumprir o papel de levar ao leitor mediano de língua inglesa o gostinho de um poema que, se não fosse através de um tradutor, não seria saboreado; um texto absolutamente fora do alcance dele na língua original. E isso nós conseguimos.

Antes de anunciar a(s) traduções (versões, pseudo traduções, novos poemas) escolhida(s), queria lembrar que Quintana, tradutor versado que era, deve ter tido plena consciência dos desafios que seus poemas apresentariam a quem se metesse a traduzí-los, e imagino que ele esperaria uma boa dose de criatividade por parte do autor/tradutor para criar versões fora do lugar comum para sua obra em outras línguas. Versões que acrescentassem algo, como o sabor luso que ele deu às duas linhas mais famosas de Shakespeare. Hamletiana faz com que uma tradução de volta ao inglês seja praticamente impossível – nesse poema Quintana presenteou os leitores lusófonos com um aforismo intraduzível sem que haja uma nota de rodapé explicando que ‘ser’ e ‘estar’, em português, são meramente ‘to be’. Logo ele, que conseguia dizer tudo nas entrelinhas, deixa o tradutor sem saída:

Ser ou estar,
Eis a questão.

O que me deixa com um outro dilema: será que é mesmo preciso ser poeta para traduzir poesia?

A segunda parte dessa análise deliciosa que o concurso de tradução me trouxe vem mais tarde – agora preciso repousar minhas mãos.

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