Como prometido, eis uma grande e exclusiva entrevista com Sarah Rebecca Kersley, conduzida por Telma Franco em 17 de agosto deste ano, sobre o processo de tradução de Poeminha do Contra, de Mário Quintana. Por muitos considerado intraduzível, ele ganhou a versão em inglês batizada de Wee Protest Poem em 2008, e com ela Sarah provou que sim, o pequeno poema do passarinho peralta poderia ser vertido bem para a língua de Shakespeare, conservando a leveza de Quintana e o desfecho surpreendente do final. Há algumas boas surpresas nas linhas abaixo, caros leitores – de agora em diante vocês se lembrarão sempre, e com um sorriso no rosto, do Quintana quando estiverem empacados em uma fila!

TELMA: Pode nos contar um pouco sobre seu processo tradutório e como chegou à versão final “Wee Protest Poem”, do “Poeminho do Contra”?

SARAH: O processo que eu adoto na tradução de um poema é um misto de bastante trabalho (ou seja, a bunda colada na cadeira durante horas) com alguma espécie de estalo.

No caso desta tradução, tanto o trabalho, quanto o estalo, aconteceram enquanto eu esperava numa fila do Banco do Brasil em Itacaré, Bahia.

Todos que já estiveram em Itacaré devem ter alguma história pra contar sobre a experiência de usar o Banco do Brasil de lá. Só existe um banco em Itacaré e encarar a fila que se forma é algo profundamente frustrante tanto para os clientes quanto para os funcionários. A agência instalou-se na cidade numa época em que a população era pequena e não tinha muita gente com conta bancária. Nos onze anos que transcorreram desde o asfaltamento da estrada de acesso, a população mudou drasticamente tanto no número quanto no perfil. Hoje passa dos 20 mil habitantes e uma quantidade enorme de gente usa essa agência. Uma típica ida ao banco te obriga a uma fila de 3 horas, ou mais, e a uma grande dose de paciência.

Mas para quem ama ler e escrever a experiência do Banco do Brasil em Itacaré pode até ser frutífera e estimulante. Não entrei na fila com a intenção de trabalhar na tradução, mas enquanto eu estava lá desenvolvi uma nova percepção sobre o poema do Quintana e a ideia para a tradução me ocorreu. Eu não tinha levado nenhum bloco de anotações comigo, mas eu tinha uma caneta e anotei a tradução dos três primeiros versos no verso de um comprovante do FGTS.

T: Quantas versões você fez? E que alternativas usou primeiro? Os dois últimos versos foram os primeiros que você criou ou foram os últimos?

S: Uma versão. Eu cheguei rapidamente aos três primeiros versos e acho que no dia seguinte decidi como solucionar o desfecho.

Infelizmente não tenho mais o papel em que escrevi a primeira versão – eu até procurei, mas não o encontrei. Mas acho que no começo pensei em usar o verbo/substantivo pass e também brinquei com o som de little. Mas a versão final não contém nenhuma dessas palavras, e eu não sei explicar como cheguei lá.

T: Você escolheu ‘wee’ para o título conscientemente, por causa de t-wee-ty?

S: Não. Essa escolha não foi consciente. Bem observado.

T: Me disseram que ‘wee‘ é mais natural na fala de uma escocesa, e uma inglesa usaria ‘little‘. Você concorda com isso?

S: Realmente, wee é tipicamente escocês, mas também é usado na Inglaterra e nos Estados Unidos por pessoas que não nasceram na Escócia quando elas querem dizer little de uma maneira informal.

Yon é uma palavra tipicamente escocesa, então, olhando por esse prisma, acho que combina com wee. Eu sou inglesa e essas escolhas se deram no subconsciente. Mas, pensando bem agora, talvez tenha a ver com o fato de eu sentir muita afinidade tanto com a literatura quanto com a música escocesa. Além disso, morei muitos anos na Escócia, e na faculdade tive vários professores escoceses que davam matérias relacionadas à linguagem.

Tanto o Scots [língua nativa da Escócia] quanto o inglês falado na Escócia usam yon ou yonder no sentido de over there (expresso, com frequência, por yonder ou over yonder) ou no sentido de that one (expresso, com frequência, por yon).

Parece que yonder é mais comum do que yon para se designar over there. Yon é muito usado para designar that ou those. Não lembro de ouvir a frase over yon para dizer over there como usei na tradução do poema. Mas eu a usei conscientemente, numa maneira elíptica de sugerir over yonder.

Folk também combina bem com o estilo fofinho da tradução como um todo, assim como o uso de them como determinante, seguindo a mesma linha informal, em lugar de those. Manter a coerência do estilo fofinho, a propósito, foi uma opção subconsciente que só se manifestou quando o último verso me ocorreu.

T: Algumas soluções tradutórias demoram a chegar, outras chegam de repente, como num “passe de mágica”. Você diria que ‘Tweety Pie’ veio num “passe de mágica”?

S: Difícil dizer. Mas algumas coisas podem ter me influenciado de maneira subliminar:

1. Muitos passarinhos gostam de se esconder entre as vigas de madeira do meu telhado e o canto deles é a primeira coisa que eu ouço de manhã ao acordar.
2. Three Little Birds, do Bob Marley, é uma das minhas músicas favoritas e eu a ouço direto enquanto estou trabalhando.
3. Acho que assisti a desenho animado demais quando eu era criança.

É bom lembrar que quando eu traduzi esse poema, em 2008, eu nunca tinha ouvido falar do Twitter!

T: Por fim…Você acha que o Mario Quintana aprovaria a sua versão?

S: Uma coisa interessante sobre essa tradução é que ela tem especificidades culturais. Com isso quero dizer que o leitor do original tem de ter um bom conhecimento da língua portuguesa para “sacar” o poema, mesmo que superficialmente. Da mesma maneira, o leitor da tradução tem de ter um bom conhecimento de inglês para “sacar” alguma coisa.

O poema original, porém, é universal no tempo e no espaço, e não requer do leitor nenhum conhecimento cultural específico. Ele expressa um sentimento humano universal. Em contrapartida, minha tradução está condicionada a uma referência da cultura popular norte-americana do século 20. Não é universal nem no tempo nem no espaço.

Então embora eu goste muito da minha interpretação, não tenho muita certeza se Quintana a aprovaria, e pode ser que ele considerasse o Poeminho do Contra intraduzível.

— Fim —

Originária da Inglaterra mas residente na Bahia desde 2005, Sarah Rebecca Kersley é tradutora profissional e criadora-diretora do espaço Urso de Óculos, a única livraria no pequeno município de Itacaré.

Essa entrevista, feita em 17 de agosto de 2009, teve como objetivo auxiliar Telma a entender o processo tradutório de Sarah para enriquecer a palestra que fará no Nas Trilhas de Tradução, em Ouro Preto, no dia 9 de setembro, na Sala 5, às 14:20. O Nas Trilhas da Tradução é parte do X Encontro Nacional de Tradutores/IV Encontro Internacional de Tradutores que acontecem em Minas de 7 a 10 setembro 2009.

A entrevista foi publicada aqui no Talqualmente em primeira mão – como me sinto honrada! – sintam-se a vontade para copiar, colar, divulgar! Aliás, há um press release pronto, para os colegas da imprensa: Como se diz “Eles Passarão…Eu Passarinho” em inglês? Tradução do famoso poema será apresentada em Encontro Internacional de Tradutores em Ouro Preto no dia 09/09/2009.

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