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Quintana Challenge

These are posts (in Portuguese) related to the Quintana Challenge, promoted in 2009, to find a good English translation for “Poeminha do Contra”, by Mário Quintana:

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

The Contra’s Little Poem

Versão de Eduardo Miranda para Poeminha do Contra, de Mário Quintana, feita para uma revista literária de Dublin.
.
The Contra’s Little Poem

All of those who may
Forbid me to fly:
They will pass away
I’m passing by.

Ele explica:

Neste poema, Quintana usa um homógrafo – “Passarão” – o futuro frase do verbo “passar”, o que pode ser interpretado como “morte”, mas também significa “pássaro grande”, embora este significado esteja fora de contexto até o próximo verso, onde Quintana usa a palavra “passarinho” – que significa “pequeno pássaro” – que ecoa com “Passarão”, trazendo à tona seu segundo significado.

Sarah Rebecca Kersley e a construção do ‘Wee Protest Poem’

Como prometido, eis uma grande e exclusiva entrevista com Sarah Rebecca Kersley, conduzida por Telma Franco em 17 de agosto deste ano, sobre o processo de tradução de Poeminha do Contra, de Mário Quintana. Por muitos considerado intraduzível, ele ganhou a versão em inglês batizada de Wee Protest Poem em 2008, e com ela Sarah provou que sim, o pequeno poema do passarinho peralta poderia ser vertido bem para a língua de Shakespeare, conservando a leveza de Quintana e o desfecho surpreendente do final. Há algumas boas surpresas nas linhas abaixo, caros leitores – de agora em diante vocês se lembrarão sempre, e com um sorriso no rosto, do Quintana quando estiverem empacados em uma fila!

TELMA: Pode nos contar um pouco sobre seu processo tradutório e como chegou à versão final “Wee Protest Poem”, do “Poeminho do Contra”?

SARAH: O processo que eu adoto na tradução de um poema é um misto de bastante trabalho (ou seja, a bunda colada na cadeira durante horas) com alguma espécie de estalo.

No caso desta tradução, tanto o trabalho, quanto o estalo, aconteceram enquanto eu esperava numa fila do Banco do Brasil em Itacaré, Bahia.

Todos que já estiveram em Itacaré devem ter alguma história pra contar sobre a experiência de usar o Banco do Brasil de lá. Só existe um banco em Itacaré e encarar a fila que se forma é algo profundamente frustrante tanto para os clientes quanto para os funcionários. A agência instalou-se na cidade numa época em que a população era pequena e não tinha muita gente com conta bancária. Nos onze anos que transcorreram desde o asfaltamento da estrada de acesso, a população mudou drasticamente tanto no número quanto no perfil. Hoje passa dos 20 mil habitantes e uma quantidade enorme de gente usa essa agência. Uma típica ida ao banco te obriga a uma fila de 3 horas, ou mais, e a uma grande dose de paciência.

Mas para quem ama ler e escrever a experiência do Banco do Brasil em Itacaré pode até ser frutífera e estimulante. Não entrei na fila com a intenção de trabalhar na tradução, mas enquanto eu estava lá desenvolvi uma nova percepção sobre o poema do Quintana e a ideia para a tradução me ocorreu. Eu não tinha levado nenhum bloco de anotações comigo, mas eu tinha uma caneta e anotei a tradução dos três primeiros versos no verso de um comprovante do FGTS.

T: Quantas versões você fez? E que alternativas usou primeiro? Os dois últimos versos foram os primeiros que você criou ou foram os últimos?

S: Uma versão. Eu cheguei rapidamente aos três primeiros versos e acho que no dia seguinte decidi como solucionar o desfecho.

Infelizmente não tenho mais o papel em que escrevi a primeira versão – eu até procurei, mas não o encontrei. Mas acho que no começo pensei em usar o verbo/substantivo pass e também brinquei com o som de little. Mas a versão final não contém nenhuma dessas palavras, e eu não sei explicar como cheguei lá.

T: Você escolheu ‘wee’ para o título conscientemente, por causa de t-wee-ty?

S: Não. Essa escolha não foi consciente. Bem observado.

T: Me disseram que ‘wee‘ é mais natural na fala de uma escocesa, e uma inglesa usaria ‘little‘. Você concorda com isso?

S: Realmente, wee é tipicamente escocês, mas também é usado na Inglaterra e nos Estados Unidos por pessoas que não nasceram na Escócia quando elas querem dizer little de uma maneira informal.

Yon é uma palavra tipicamente escocesa, então, olhando por esse prisma, acho que combina com wee. Eu sou inglesa e essas escolhas se deram no subconsciente. Mas, pensando bem agora, talvez tenha a ver com o fato de eu sentir muita afinidade tanto com a literatura quanto com a música escocesa. Além disso, morei muitos anos na Escócia, e na faculdade tive vários professores escoceses que davam matérias relacionadas à linguagem.

Tanto o Scots [língua nativa da Escócia] quanto o inglês falado na Escócia usam yon ou yonder no sentido de over there (expresso, com frequência, por yonder ou over yonder) ou no sentido de that one (expresso, com frequência, por yon).

Parece que yonder é mais comum do que yon para se designar over there. Yon é muito usado para designar that ou those. Não lembro de ouvir a frase over yon para dizer over there como usei na tradução do poema. Mas eu a usei conscientemente, numa maneira elíptica de sugerir over yonder.

Folk também combina bem com o estilo fofinho da tradução como um todo, assim como o uso de them como determinante, seguindo a mesma linha informal, em lugar de those. Manter a coerência do estilo fofinho, a propósito, foi uma opção subconsciente que só se manifestou quando o último verso me ocorreu.

T: Algumas soluções tradutórias demoram a chegar, outras chegam de repente, como num “passe de mágica”. Você diria que ‘Tweety Pie’ veio num “passe de mágica”?

S: Difícil dizer. Mas algumas coisas podem ter me influenciado de maneira subliminar:

1. Muitos passarinhos gostam de se esconder entre as vigas de madeira do meu telhado e o canto deles é a primeira coisa que eu ouço de manhã ao acordar.
2. Three Little Birds, do Bob Marley, é uma das minhas músicas favoritas e eu a ouço direto enquanto estou trabalhando.
3. Acho que assisti a desenho animado demais quando eu era criança.

É bom lembrar que quando eu traduzi esse poema, em 2008, eu nunca tinha ouvido falar do Twitter!

T: Por fim…Você acha que o Mario Quintana aprovaria a sua versão?

S: Uma coisa interessante sobre essa tradução é que ela tem especificidades culturais. Com isso quero dizer que o leitor do original tem de ter um bom conhecimento da língua portuguesa para “sacar” o poema, mesmo que superficialmente. Da mesma maneira, o leitor da tradução tem de ter um bom conhecimento de inglês para “sacar” alguma coisa.

O poema original, porém, é universal no tempo e no espaço, e não requer do leitor nenhum conhecimento cultural específico. Ele expressa um sentimento humano universal. Em contrapartida, minha tradução está condicionada a uma referência da cultura popular norte-americana do século 20. Não é universal nem no tempo nem no espaço.

Então embora eu goste muito da minha interpretação, não tenho muita certeza se Quintana a aprovaria, e pode ser que ele considerasse o Poeminho do Contra intraduzível.

— Fim —

Originária da Inglaterra mas residente na Bahia desde 2005, Sarah Rebecca Kersley é tradutora profissional e criadora-diretora do espaço Urso de Óculos, a única livraria no pequeno município de Itacaré.

Essa entrevista, feita em 17 de agosto de 2009, teve como objetivo auxiliar Telma a entender o processo tradutório de Sarah para enriquecer a palestra que fará no Nas Trilhas de Tradução, em Ouro Preto, no dia 9 de setembro, na Sala 5, às 14:20. O Nas Trilhas da Tradução é parte do X Encontro Nacional de Tradutores/IV Encontro Internacional de Tradutores que acontecem em Minas de 7 a 10 setembro 2009.

A entrevista foi publicada aqui no Talqualmente em primeira mão – como me sinto honrada! – sintam-se a vontade para copiar, colar, divulgar! Aliás, há um press release pronto, para os colegas da imprensa: Como se diz “Eles Passarão…Eu Passarinho” em inglês? Tradução do famoso poema será apresentada em Encontro Internacional de Tradutores em Ouro Preto no dia 09/09/2009.

As aventuras do passarinho peralta de Quintana

Há tempos que não apareço pelas bandas de cá, mas se parei minha locomotiva para escrever essas poucas traçadas linhas, tenham certeza que a notícia é boa. Aliás, maravilhosa!

Lembram que em fevereiro de 2008 (como passou rápido!) promovi neste espaço um pequeno concurso de tradução desafiando meus dois ou três leitores a apresentarem uma tradução aceitável para o Poeminha do Contra de Mário Quintana? Digo aceitável porque até então, para mim, a leveza e espírito brincalhão daquele poema eram algo impossível de traduzir para o inglês. Para surpresa geral, tivemos ótimas traduções e uma vencedora: Sarah Kersley foi coroada com uma ótima versão, que ela batizou de “Wee Protest Poem”.

Para relembrar:

“Todos estes que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão.

Eu passarinho!”

Mario Quintana

All them folk there over yon

My path they do defy,

They’ll tweet along.

I Tweetie Pie!

Sarah Rebecca Kersley

A grande novidade é que vira e mexe na internet, os posts sobre o concurso foram parar na academia: Telma Franco, mestranda em tradução pela UFSC, chegou ao Talqualmente e teve uma grata surpresa ao encontrar não apenas uma, mas várias versões do Poeminha do Contra, que ela também considerava impossível de ser traduzido mantendo-se fiel ao “espírito brincalhão do desfecho transgressor e inventivo do poema”.

Foi assim que o Primeiro Grande Concurso Talqualmente de Tradução serviu de inspiração para o artigo O paradoxo do passarinho peralta, recentemente publicado na Revista de Letras da Universidade Estadual Paulista. Telma o conclui assim:

“Mario Quintana (1984) se dizia um poeta insatisfeito: “Eu não sou um poeta satisfeito. Eu sempre procuro ir mais adiante. A poesia é o mais adiante.” Mas, sendo ele próprio um poeta de natureza sapeca e graciosa, e lembrando que neste poema o eu lírico é o passarinho, não é demais supor que Quintana ficaria satisfeito de se ver comparado ao peralta Piu-Piu/ Tweety Pie.” (Telma Franco)

Fico muito feliz em saber que o concurso que na verdade não passava de uma brincadeira rendeu a Sarah e a Telma uma boa parceria. Agora em setembro, as duas estarão presentes no “Nas Trilhas da Tradução“, um Encontro Internacional de Tradutores em Ouro Preto, onde Telma apresentará o trabalho. No mais, as duas estão trabalhando juntas em alguns projetos e se tudo der certo, ainda mais bons frutos virão dessa parceria. Aguardem mais boas notícias, e uma entrevista com Sarah, conduzida por Telma, sobre o processo tradutório de Poeminha do Contra, que pretendo publicar ainda essa semana.

Poeminha do Contra em inglês

Foi uma escolha difícil e, me sentindo incapacitada de julgar traduções em minha segunda língua (aliás, será que é possível avaliar traduções at all?), contei com a ajuda daquele que me recita Jabberwocky, um ávido leitor de literatura em inglês mas que saca pouco, bem pouco, de português. A idéia era que ele detectasse aquelas versões em que as rimas tivessem sido respeitadas, e que fizessem sentido – em outras palavras, textos que ao invés de traduções se mantivessem de pé por conta própria, poemas por si independentemente do original.

E eu então fiquei com um quarto das traduções para tentar encontrar um quê de Quintana nelas. Eis que então, nessa escolha informal, talvez não tenha prevalecido a tradução tecnicamente melhor que todas, ou a tradução perfeita, mas aquela que, cumprindo os critérios mínimos de métrica e rima, me agradou mais pessoalmente. E o meu critério aqui foi escolher aquela versão que, como Poeminha do Contra, coloca um sorriso no meu rosto ao fim da leitura:

All them folk there over yon
My path they do defy,
They’ll tweet along.
I Tweetie Pie!

As rimas estão aí, nas linhas 1/3 e 3/4, embora sejam sonoras e não visuais (culpe a língua inglesa!), e a métrica é quase a mesma. A tensão está bordada nas duas primeiras linhas. A versão de Sarah também faz uma compensação para os elementos que se perderam do original.  Tweet em si é uma palavra ótima (como dizer em português o gorjeio de um pássaro fraco ou ainda jovem? Pio mesmo?). Mas é o final citando Tweetie Pie que surpreende o leitor (de língua inglesa) tanto quanto o final do Poeminha do Contra de Quintana, e dá a ele uma imagem não presente no original – àqueles que estão aí atravacando o caminho passam a ser o desesperado Frajola que persegue e nunca alcança o Piu-piu! E ainda fica nas entrelinhas que Tweetie Pie, como foi inteligentemente batizado o personagem de Warner Bros., é uma brincadeira com o carinhoso Sweetie Pie. Cute demais!

Com isso, bem como o Quintana gosta, Sarah criaria um problema para aquele que desejar traduzir o poema de volta para o português, :). Moça que vive no meio de livros, que livro devo escolher?

Muito obrigada a todos que participaram!

Poeminha do Contra e a impossibilidade tradutória

Em Poeminha do Contra, Mário Quintana nos mostra algumas das características marcantes que garantem a ele um lugar na minha lista de poetas brasileiros geniais e indefectíveis – a simplicidade, a concisão e a leveza presentes nas quatro linhas do poema, e arranjadas de uma forma deveras eficaz com uma pitada inimitável de senso de humor quintanesco, fazem com que o poema beire o intraduzível.

Tradução mera e simples para o inglês de todas as nuances que ele apresenta não funciona aqui, especialmente por causa de uma pequena limitação da língua de Shakespeare quando comparada com a de Quintana – a ausência quase total do elemento que dá toda a graça às palavras do brasileiro: sufixos que sejam correspondentes diretos dos nossos aumentativo ‘ão’ e diminutivo ‘inho’. Acrescentados à palavra passar (que por si só significa tanta coisa), eles a tatuam com uma marca totalmente diferente, transformando-a num verbo em forte tom de futuro do presente na terceira linha e num delicado substantivo na linha de desfecho. Nas entrelinhas, passarão, da etimologia pássaro + -ão, também significa pássaro grande, e é um regionalismo para ‘espertalhão’ muito usado em Portugal.

Uma brincadeira de inocência quase infantil com partículas e significados da nossa língua; uma aliteração que, caros leitores, infelizmente se perde na tradução, pelo menos na versão em língua inglesa, e imagino que outras línguas romanas não alcançariam a façanha tão facilmente. Acrescente-se a isso tudo as rimas muito naturais, e que são ao mesmo visuais e fonéticas, e o intraduzível, ou pelo menos no formato de cópia fiél de uma obra em outra língua que normalmente se espera que a tradução seja, se confirma. Considero intraduzíveis essas quatro linhas, uma quadra que faz o leitor chegar ao meio do poema com uma dose de ansiedade, e acabar a leitura com um sorriso nos lábios.

Essa leveza derivada do contraste entre a tensão da primeira metade e a candura da segunda, no entanto, pode sim ser traduzida e a língua inglesa tem a concisão ideal para isso, mas muitos bílingues hão de concordar comigo, dificilmente com a mesma beleza e inocência do original. A boa notícia é que traduções possam vir a ter uma outra luz, uma outra certa lindeza própria. Ou, em outras palavras, o poema de Quintana pode inspirar versões, adaptações, traduções criativas que venham a cumprir o papel de levar ao leitor mediano de língua inglesa o gostinho de um poema que, se não fosse através de um tradutor, não seria saboreado; um texto absolutamente fora do alcance dele na língua original. E isso nós conseguimos.

Antes de anunciar a(s) traduções (versões, pseudo traduções, novos poemas) escolhida(s), queria lembrar que Quintana, tradutor versado que era, deve ter tido plena consciência dos desafios que seus poemas apresentariam a quem se metesse a traduzí-los, e imagino que ele esperaria uma boa dose de criatividade por parte do autor/tradutor para criar versões fora do lugar comum para sua obra em outras línguas. Versões que acrescentassem algo, como o sabor luso que ele deu às duas linhas mais famosas de Shakespeare. Hamletiana faz com que uma tradução de volta ao inglês seja praticamente impossível – nesse poema Quintana presenteou os leitores lusófonos com um aforismo intraduzível sem que haja uma nota de rodapé explicando que ‘ser’ e ‘estar’, em português, são meramente ‘to be’. Logo ele, que conseguia dizer tudo nas entrelinhas, deixa o tradutor sem saída:

Ser ou estar,
Eis a questão.

O que me deixa com um outro dilema: será que é mesmo preciso ser poeta para traduzir poesia?

A segunda parte dessa análise deliciosa que o concurso de tradução me trouxe vem mais tarde – agora preciso repousar minhas mãos.

Poeminha do Contra

“Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!”

Mario Quintana

Dou um livro da wishlist de quem me apresentar uma boa tradução para esse poeminha singelo do colega tradutor e jornalista, e grande poeta, Quintana, que mantenha as rimas e a piadinha, :)

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